terça-feira, 24 de abril de 2007

ABRIL DEMORA-SE NO ROSTO DOS VELHOS


Ermesinde: 1974.

Como se não houvesse memória sem escrita, a infância que vivi longe do alfabeto perdeu-se, selvagem, no bosque do esquecimento. O que dela recordo são flores secas num velho álbum familiar, além de algumas pétalas de grandiloquência paterna: letras fabulosas de um abecedário que eu, com sete anos miúdos e caracóis tristes, há bem pouco aprendera à sombra de palmatórias, mas só mais tarde, não muito, porém, soube reconhecê-las na sua tríplice semântica luminosa e libertária: Descolonização, Democracia e Desenvolvimento. Sem o saber, não vendo então nos cravos senão a cor vista, o último pronunciamento romântico do século cujo fim se avizinha dera-me a inaudita possibilidade de soletrar em voz alta liberdade e outras palavras exclusas durante quarenta e oito anos do livro de leitura da primeira classe. E eis uma notícia de tal modo única que nenhum de nós pode deixar de ser o seu porta-voz, agora e sempre, junto de quem a ignora, filhos de Abril, para que nunca morra nas prateleiras bolorentas da história nem sufoque na farpela institucional das comemorações oficiais e oficiosas.
Talvez seja esta, no entanto, uma esperança vã. Não é hoje o capital hiena finissecular à solta? Não circula ele ferozmente sobre os escombros do muro de Berlim, dando voltas e voltas ao planeta, noite e dia, dia e noite, destruindo tudo e todos à sua passagem virtual? Não delira o dólar em Wall Street? Donde o desencanto em cujo berço pari com dezassete anos, que me seja permitida a lembrança, o primeiro poema sobre Abril:

Fecharam-se as portas da cidade
A festa acabou
Os bêbados acordaram sóbrios
banais de frio
à beira da estrada

Abril demora-se no rosto dos velhos

Sim, fecharam-se as portas da cidade
e a chave

a chave?
Perdeu-se


Não discuto o seu valor literário, certamente menor. Importa aqui tê-lo unicamente em conta pelo seu simbolismo: publicado pelo «Jornal de Notícias», na sua «Página da Juventude», em 12 de Janeiro de 1985 — data em que atingi a maioridade —, traz-nos o doloroso semblante de um mundo de novo em transformação, não sendo ela, todavia, revolucionária. Trata-se de uma denúncia juvenil, mas lúcida, pois a sua melhor prova está nesse retorno, sem dúvida escandaloso, de uma velha trilogia: quem não a vê?

EURICO CARVALHO
Texto publicado em Abril de 1999
no jornal «O Tecto» de Vila do Conde
(Ano XI: N.º 22).
Cf. página 7.

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